Dramatização desesperada
Quinta-feira, saí de uma aula na faculdade de letras feliz da vida. Um curso livre sobre análise de filmes. Na apresentação, poemas de Baudelaire e de A. Ginsberg, trechos de La Strada de Fellini e de On the Road. Fora o prazer de fazer parte de um curso-oficina como aluno – creio que pela primeira vez – ainda por cima revi cenas de On the road e ouvi depois de tanto tempo Born to be wild, um dos rocks que mais gostei quando eu quase só ouvia rock.
Segui para a rua naquele estado de suspensão do mundo cotidiano em que a arte me deixa, quando começo a ouvir gritos. Vinham da parada do tramway. Só pude ver a pequena multidão silenciosa e atônita formando um círculo de espectadores.
No centro, um homem gritava em francês; como falava muito rápido e aos berros, com gestos largos e dramáticos e com expressões de fúria desesperada, pude entender quase nada. Mas o que se passava era evidente, fosse qual fosse sua língua.
Um par de policiais se aproximou, tirando as algemas de trás da cinta. Frios e calmos, sem se abalar. O homem gritava para eles e se voltava para a multidão aos berros. Pedia para ser preso, mostrava que era inofensivo, que não estava armado. Foi tirando seu casaco, suas roupas de frio e mostrando que não trazia armas escondidas. Autorizou sua prisão. Chegou diante dos dois policiais, sempre aos berros, deixou suas coisas no chão e se deitou com as mãos para trás, pronto para ser algemado. Continuava com os gritos desesperados.
Os policiais o prenderam, firmes e calmos. Impassíveis. Um rapaz meio sem saber o que fazer se ofereceu para transportar seu saco plástico e suas roupas de frio. Não vi a reação da policial. O homem não se levantou, não andou, deixou seu corpo imóvel como o de um peso a ser carregado, os pés esticados... obrigou os policiais a arrastarem-no. Já não gritava... tive a impressão de ouvir um princípio de choro.
Aquilo me pegou pelo estômago. Olhei a redor, alguns riam baixo um riso nervoso e incrédulo. Outros seguravam o ar, com expressões contorcidas, visivelmente tocados pela dramatização da prisão. Pegos pela encenação pública do desespero.
Fiz parte desse segundo grupo.
Foi mais um lance da mó de triturar gente.
Escrito por Mauricio às 12h20
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