Me tornando o que eu descobria.
Tenho muita coisa pra escrever. Sinto-me em débito com o plano inicial de registrar o meu modo de perceber a viagem. Perceber para dar sentido. Dar sentido para achar rumo. Achar rumo para me sentir em casa. E é tendo uma casa que me sinto protegido. É justamente por isso que tenho escrito cada vez menos: cada vez mais as coisas fazem sentido, seja qual ele for. Na verdade, em relação à vida de Genebra, me sinto num lugar meio estranho. Já não estou olhando tão de fora, com o olhar curioso de quem explora e de que considera interessante o que quer que seja. O movimento da cidade, as falas padronizadas, o espaço, os ritmos, enfim... há uma rotina da qual faço parte. Mas isso não quer dizer entrar no interior do mundo cultural de Genebra. A vida genebrina fica sempre mais ali, um tico além. Pelo meu modo de perceber as coisas, isso é assim por questões bem simples. Primeiro porque quase não se conhece os genebrinos, depois porque há um modo de viver do estrangeiro em Genebra. Há um modo de estabilizar rotinas e ritmos no provisório. Em suma, faço parte do mundo que estranhei há poucos meses.
Nesses dias, numa conversa solta durante o almoço, Laurent contou que o meu francês evolui muito em pouco tempo, pois posso falar rápido e fluente participando das conversas em grupo. Isso não quer dizer que eu domine a língua, ao contrário. Me ocorrem vários brancos, cometo erros dos vários tipos que podem ser cometidos por um estrangeiro. Tem horas em que me sinto funcionando a pleno vapor em francês; em outros, sinto que não consigo falar nem Salut! Ça va?. Mas entendo quase tudo o que falam, assisto aulas tendo dúvidas de vocabulário pontuais, posso ler muito bem, consigo tomar parte das discussões de trabalho e consigo me exprimir bastante bem. Creio que a mesma força que eu fiz para compreender a cidade, fiz pra entender a sua língua-geral. Faço parte dos estrangeiros que se viram bem com a língua.
Não tenho noção do que tudo isso tá fazendo comigo. Creio que só saberei ao voltar ao Brasil. Uma coisa é certa, meu centro de referência para olhar o mundo foi chacoalhado. São Paulo me deu régua e compasso, mas o mundo me parece agora ao mesmo tempo imenso e pequeno. Imenso porque a fabulosa diversidade de Genebra vai me mostrando em cores vivas que há muitos modos de ser humano; pequeno porque ele inteiro me parece possível. Gostar ou desgostar; ser fácil ou difícil são apenas secundariamente questões pertinentes. Vai se tornando “natural’ o sentimento de que se algo humano não me indiferente e tampouco me é impossível.
Escrito por Mauricio às 19h12
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Entre pessoas e labirintos
Achar lugar num mundo que não é o nosso é difícil. Como já disse, o movimento em direção à lógica da vida e da língua local não acontece em um puro acolhimento. Os sinais boas-vindas e os chamados pelo oh de casa! ocorrem em um mundo labiríntico. Houve horas em que não soube se não fiz algo certo, se fui invasivo, se fui excessivamente reservado e arredio ou se fui agressivo. Por vezes, sei que fui evasivo e fechado e não me dei a conhecer. Um colega do foyer foi, de boa fé, porta voz de queixas de um grupo.
Em vários ambientes, parece que fui conhecendo num ritmo mais veloz do que fui sendo conhecido. Até aí, nenhuma novidade. Na Universidade, há dois grandes fatos novos a se acrescentar a esse proceder: por razões óbvias, fui me dando a conhecer sobretudo nos assuntos de trabalho; temos instrumentos semelhantes para compreender o outro. Além desses dois aspectos, o convívio com eles é mais denso e significativo. E é o objetivo de tudo.
Por essas e outras, a devassa e o ensimesmamento são sentimentos corriqueiros e cotidianos. São freqüentes e indesejados ao mesmo tempo. Mas como calibrar o tempo do contato, do conhecer e do se dar a conhecer? No meu caso, a regulagem depende do conhecimento das regras do jogo. É só quando vou as conhecendo é que consigo me relacionar sem me sentir devassado ou isolado. Ao mesmo tempo, não quero nada que me prenda a um papel encenado que me amarre, seja ele qual for.
Estes três parágrafos de cima, eu os escrevi já faz umas duas semanas. Não os publiquei, pois ainda não tinha digerido o seu conteúdo. Como sempre, as águas rolam intensas. Entrei no meio do turbilhão do circuito ampliado das relações de trabalho por três dias, num seminário num cantão vizinho a Genebra. Na segunda-feira, exausto, precisei de catarses. Expressões e explosões dos conflitos com efeito purificador. Ou seja, catarse no sentido clássico. Na verdade, queria um banho de descarrego na cachoeira do Promirirm, em Ubatuba. Depois, um feijão de caldo grosso com peixe fresco de carne carnuda e branca, arroz e farinha de mandioca “da terra”. Querer uma cerveja boa e uma cachaça fina já seria demais. Na falta do meu idílio nativista, só pude usar do verbo ou, plutôt, du verbe.
Nessa semana, me caiu uma ficha ótima, derivada du mon usage du verbe. O fato é que já sou conhecido e já conheço. Já há rotinas – já há ritmos pra vida. Os outros já não são névoas, mas pessoas. Eu já me sinto visto em névoas e expectativas do que é ser um doutorando brasileiro em Genebra. Os outros, já são cada um deles. Eu, o Mauricio. Isso é bom. E o motivo é simples: já consigo distinguir o que me diz respeito e o que não é da minha alçada. Já posso saber melhor a hora de falar e de calar. Já consigo distingüir o que é importante conhecer e o que é melhor nem querer saber.
E assim vou criando rotina na meia-distância.
Escrito por Mauricio às 19h11
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