Foi no cimetière des rois, no centro de Genebra, que tive a impressão mais forte do modo calvinista de negar a celebração da imagem. Chegamos lá por acaso, num passeio de domingo, eu, um amigo e uma amiga. Fiquei curioso pra ver como a memória do morto – e de Genebra, por extensão – é marcada no local de seus restos; para ver como se celebra e se sustenta no tempo a dor da perda entre aqueles que ficam.
Até então, só a catedral Saint-Pierre havia me mostrado com força a negação da devoção das imagens. Para quem já visitou os cemitérios brasileiros, e eu tinha os paulistanos comigo, esse é impressionante. É um conjunto de anti-monumentos dedicados à anti-celebração. Quando muito, pedras rústicas nas quais se pode ler o nome do morto. Pouquíssimas estátuas, raros bustos. Mausoléus, só vi de não genebrinos. O maior, de uma russa. Aliás, é interessante ver a presença de ex-súditos do Czar e demais estrangeiros no panteão local. Os membros de parte da elite local e os acolhidos ilustres, como Borges, a filha de Dostoievsky e, recentemente, Sérgio Vieira de Melo, recolocam no espaço e no tempo a auto-imagem tão cultuada de Genebra: uma cidade internacional!
Mas o ápice da negação calvinista do culto à imagem, para mim, é o túmulo de Piaget. Muito mais que o provável túmulo dele mesmo, Jean Calvin. Após consultarmos o mapa e o procurarmos pelo gramado, finalmente o encontramos. Nos entreolhamos surpresos e não pudemos deixar de rir, surpresos e decepcionados. São três ou quatro pedras em um montinho no gramado com uma folhagem baixa. E uma plaquinha modesta. Nada além, nada. Absolutamente.
Quando se visita a catedral e o museu de arte e história, pode-se ter noção do que significou o poder de Calvino. Realmente, ele foi ao extremo na afirmação de seus preceitos. Na Saint-Pierre, em estilo gótico, e no museu de arte e história, há peças que revelam o universo das imagens católicas que o precedeu. A pequena capela que fica no térreo de uma das torres da catedral se pretende uma releitura da imagética anterior ao quebra-quebra iconoclasta e reformador. É linda, monumental e algo orientalizada, plena de marcas do tempo em que a igreja católica ainda não havia se afastado tanto dos padrões estéticos do cristianismo ortodoxo.
Mas o que veio foi a máxima expressão possível do ascetismo. Os tempos de Calvino foram de uma redução ao mínimo da vida mundana, material e dos prazeres humanos. O trabalho era a redenção; a riqueza, a prova do sucesso nos encontros com Deus. O lucro, os juros, as relações mercantis com todos, tudo isso era legítimo! E eis que Genebra foi enriquecendo e atraindo fortunas.