Luxo burguês e mitologia encravada no espaço
Os prédios da cidade velha que remontam aos tempos da Reforma são severos e incrivelmente assimétricos. Por vezes, as janelas parecem boiar tortas e meio que espalhadas, pois não há linhas que as unam nem vertical, nem horizontalmente. Suas paredes insinuam que o prumo e o esquadro são invenções posteriores. Nos espaços internos, há sinais de tempos rústicos para se viver. Todo esse clima é intenso no pequeno museu de Montreux. As reconstruções dos espaços, as tralhas domésticas, os instrumentos de trabalho, tudo remontava ao rústico e ao severo. Sempre.
Mas... a arquitetura da cidade foi reformada. Tudo leva a crer que a partir de meados do VXIII ao começo do XX, uma febre neoclássica varreu o austero. Há colunatas atrás de colunatas, sendo particularmente impressionantes as que foram enfiadas na marra na fachada da Saint-Pierre. No museu de arte, há algumas salas dedicadas à arte acadêmica genebrina. Fiquei com a impressão de que são mais documentos da atualização local da moda prestigiosa do que obras que valham por si.
O que terá se passado? Versão calvinista do luxo burguês? Importação dos padrões artísticos franceses...? As duas hipóteses devem ser válidas. Os valores do racionalismo e a emergência da sociedade civil não são estranhos a eles. Rousseau, afinal, é filho da terra. Mas ainda assim os meus olhos se chocam com o contraste entre fase neoclássica e os restos da época de Calvino, que mal consigo compreender. O Victoria Hall, a principal sala de concertos da cidade, é imponente e pomposo... Eu poderia enumerar exemplos à exaustão. É só olhar ao redor e ver que a simetria, o esquadro e o prumo chegaram para imperar. Com elas, os detalhes feitos para serem vistos; ostentação do grandioso e do imponente. E haja nome greco-romano pela cidade a fora.
Ao ver no museu de Montreux o cristal fino, as louças requintadas, os panos brancos e bem tecidos, os móveis trabalhados com esmero, salta aos olhos a evidência de tudo isso estava fora de lugar se posto no mundo de antes. Tenho cá pra mim que eles se afrancesaram, tiveram de dar mostras à riqueza acumulada com tanto ascetismo e fortaleceram uma mitologia genebrina toda cheia de glórias e toda repleta de heróis.
Sim, não pensem que a lógica iconoclasta significa uma recusa ao culto de uma memória mitológica. Há um imenso culto ao nome e à obra, há uma vasta oferta do discurso ufanista. Mas tudo se afirma à revelia da oferta abundante de monumentos que exibam uma imagem desses heróis. Os terrenos mais explorados são o do discurso e o da nomeação de logradouros e prédios. Paradoxalmente, a França é um dos alvos prediletos das piadas desses amantes das coisas vindas de Paris.
Alguns deles parecem os quatrocentões paulistanos do começo do século com seus bandeirantes. Eu os ouvi no curso de língua e civilização franco-genebrina, não raro, com vozes plenas de alegria e olhos brilhantes. Era um saco!
Escrito por Mauricio às 20h06
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