Pequenas comunas
Genève le 13 septembre 2004
No fim-de-semana, fiz dois passeios acompanhado por um baiano e uma dinamarquesa. Sábado, andamos algumas horas de de bicicleta pelo cantão de Genebra, na margem esquerda do Léman. Seguimos pela área rural até Hermance, uma pequena comuna à beira do lago, fronteirça com a França.
Não canso de me impressionar com a riqueza daqui. Isso que chamo de área rural é um misto de pequeníssimas vinhas, uma ou outra propriedade com cavalos e muitas casas. Quanto mais perto do lago, mais as casas são casarões. Em geral, de bom gosto. Nada como esses condomínios bregas tão comuns no Brasil, onde as famílias parecem competir entre si por meio de construções de dimensões monumentais, não raro criando o efeito de um banquete de perus em pires. Aqui, uma ou outra é suntuosa, por vezes bastante. Em em geral são feitas mais para serem belas e confortáveis do que para servirem de vitrine de exibição de patrimônio, poder e status. Não é o mesmo o que se passa com os carros. O desfile de ferraris, bmws e outros tais chega a chocar.
Passamos por alguns quilômetros de casas e pequenos sítios. Lá pelas tantas, depois de muito pedalar, quisemos uma merecida cerveja gelada. Não havia comércio e tampouco gente pelas ruas. O centrinho das comunasé um pouco diferente, mas mesmo neles, o que há são serviços bem cotidianos para os moradores, como correio e lojas de jornais e revistas.
Genebra e sua área mais intensamente urbana têm uma densidade populacional muito maior. Por onde passamos, a densidade era restrita aos clubes onde eles se divertem. Nem senti o cheiro da massa de imigrantes em busca de um pequeno naco dessa vida suíça. Tudo me pareceu uma imensa área de moradia de gente muito rica entrelaçada com antigas propriedades rurais. E, especialmente nos minúsculos centrinhos das comunas, uma classe média.
Mas é Genebra onde está o grosso classe média propriamente dita. É nela, também, que as marcas do cotidiano moderno se fazem sentir com mais força. Curiosamente, no entanto, a vida de origem cortesã e sua ritualística se faz sentir intensamente, nela. Nessa área fora da cidade, o que mais chama a atenção é a expansão de uma imensa camada de ricos por antigas propriedades rurais e uma minúscula classe média. Quem serão esses novos moradores? Talvez sejam a alta burocracia da política internacional, a alta camada dos que se dedicam ao gerenciamento de fortunas e, claro, alguns donos de fortunas. Como essa gente foi chegando na área rural? Como os pequenos proprietários de terra foram se reorganizando com os novos vizinhos? Eram pequenos mesmo, ou foram se tornando? Como lidaram com a valorização da terra? Havia vida comunitária rural? O que houve dela? E esses centros comunais com ares medievais ou quase, qual a vida que corria por eles antes da chegada dessa gente nova? E essa pequena classe média?
Escrito por Mauricio às 19h28
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