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Pedaços da bagagem na terra alheia
Genève le 21 août 2004
Nessa semana, fui um dos escalados pra fazer uma pequena apresentação no curso de francês. Coisa besta... 10 minutinhos falando em francês para o grupo me conhecer. Segui a seqüência proposta na véspera por um rapaz alemão: falei de minha cidade e, depois, de um aspecto de Genebra que me chamou a atenção. De São Paulo, citei a grandiosidade! Mais de 10 000 000 de habitantes na cidade e mais de 17 000 000 na região metropolitana, cerca dez por cento de toda a população brasileira. Genebra não tem 180 000 pessoas! ... A Suíça inteira não chega a 7 500 000! Comentei a diferença fabulosa de escala antes de relatar o meu fascínio pela presença tão intensa de estrangeiros. Ouvindo com atenção, um outro rapaz alemão me perguntou se não havia tantos estrangeiros em São Paulo. Foi uma boa pergunta... ! Respondi no ato que sim, que tem muitos estrangeiros em São Paulo e que, sobretudo, somos majoritariamente descendentes de imigrantes. Cheguei a fazer referência aos não poucos alemães fugidos da desgraceira provocada pelas guerras que marcaram a região desde o fim do século XIX até o meio do século XX. Mas, completei, em São Paulo esses imigrantes se tornaram brasileiros. Brasileiros com origens fora do Brasil, mas brasileiros. Em Genebra, não! Aqui somos estrangeiros. Estamos na terra do outro. Lembrei de uma frase boa – de efeito, porém muito boa – do Paulo Emílio Salles Gomes: para nós, nada é estrangeiro pois tudo o é. Nesse exato momento, uma brasileira interveio! Toda passional – e machucada – se queixou da Suíça exatamente por manter o estrangeiro nesse exato lugar: estranho na terra! E entoou loas ao acolhimento brasileiro... Frases de efeito, generalizações e machucados à parte, há algumas perguntas que não saem da minha cabeça: como pode Genebra acolher tantos estrangeiros, fazer disso sua marca mas mantê-los sempre na condição de hóspedes na terra alheia? E como pode uma elite calvinista tão fechada e ascética ter criado uma cidade tão cosmopolita? Um paradoxo explica o outro, talvez! Tenho pra mim que a condição da elite calvinista desenvolver sua riqueza foi se relacionar com estrangeiros de toda parte e abrir as portas da cidade e o cofre dos bancos para eles. Aliás, eles mesmos, Calvino e os seus, eram estrangeiros. Mas negócios são negócios! Como coisas da vida pública, não fazem parte das intimidades privadas. Em casa e na igreja, a vida era de recolhimento e oração. Trazendo as gentes e as riquezas dos quatro cantos para Genebra, eles acabaram por desenvolver alguns mecanismos para recolocar o tempo todo o poder genebrês-calvinista e para manter os estrangeiros enquanto tais. Alguns mecanismos me parecem óbvios: são eles que têm os direitos políticos plenos e que controlam o estado e o capital. Mas existe algo na cultura, também... como no uso do francês, que virou língua-geral: o que temos para nos entender não é nossa língua. Quanto às regras do jogo da vida pública, a mesma coisa: paira uma ordem suíça no ar! É assim que a cidade vive, nesse equilíbrio de antagonismos, nesse paradoxo de receber, acolher e manter cada macaco no seu galho. Alguns escalam alto e chegam ao topo das árvores, mas ainda assim continuam a ser estrangeiros. Outros conseguem um galho ajeitadinho e nele ficam. E tem a legião que pula daqui pra’li, de lá pra cá em busca duma sombra onde se possa tirar o sapato e deitar em berço esplêndido. Imagino que para aqueles que se estabilizam e constroem uma rede de relações, a vida corre solta e é possível viver as tantas coisas boas daqui e dos arredores. Mas para o lote de mal alocados a vida é muito pesada. De um modo ou de outro, é divertido ver como as identidades são construídas. Todos trazemos para cá fragmentos de nossas culturas e vamos reorganizando nossas vidas a partir deles. Na medida do possível, vamos encaixando esses pedaços da gente mesmo na dinâmica local. E os fragmentos que acabam expostos servem para os outros ensaiarem identificações. Ou seja, precisamos nos reorganizar na vida local com resíduos de nossas culturas e em constante relação com as representações que os outros fazem da gente. As características físicas são uma parte decisiva no jogo de descobrir quem é de onde. Mas não passam de um indício inicial e pobre... Nos detalhes é que o exercício é mais intenso. Um italiano me viu aferventando tomates para tirar a casca e fazer um molho de macarrão. Logo veio falar em italiano que eu cozinhava como na Itália. Seguimos a conversamos numa típica salada lingüística latina... E não é que ele conhece Ubatuba!?!? Hoje pela manhã, a mesma coisa: uma italiana me viu lavando a cafeteira e logo perguntou se eu vinha de lá, afinal ... aquela cafeteira ... De novo falei que não, que sou brasileiro, de São Paulo uma cidade que recebeu muitos italianos onde o café é um hábito etc e tal... Reconhecemos semelhanças e atribuímos sentido às diferenças a partir de uma imensidão de sinais: cabelo, traços físicos, língua, roupas, valores, reações, humor... e por aí vai. De fragmento em fragmento, vão se consolidando afinidades e distanciamentos. O fato é que a vida não é nada simples de se entender, nessa terra. Se há a possibilidade de se conhecer gente de toda a terra e de viver a máxima de que nada que é humano nos pode ser estranho, há também a contrapartida. Um batalhão de caricaturas e generalizações circulam afastando uns dos outros e invertendo a máxima, pois tudo que é do outro se congela difusamente no mundo estranho. Estranho, mas objeto de várias suposições às quais se atribuem mais ou menos valor de verdade.
Escrito por Mauricio às 07h50
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Bamboleio na moenda humana
Genève le 21 août 2004
Recolocar a bagagem cultural e enfrentar o olhar alheio exige um jogo de cintura e tanto. É Um bamboleio na moenda humana. Só posso falar do que vi e ouvi do meu lugar: brasileiro paulistano de traços latinos. O Brasil atiça a curiosidade européia. É impressionante... E bom! Um exemplo disso pode ser visto nas livrarias. Pensei e repensei se deveria ou não comprar livros locais sobre o Brasil. Por vezes, tive vontade de ir adiante com essa vontade de entender os brasis que existem fora do Brasil. São muitos, pois nem só pelas bundas chacoalhando à luz da lua durante a festa nacional de Genebra é conhecida a gloriosa pátria mãe gentil. Os filhos deste solo têm obras mil. O primeiro livro no qual tropiquei, foi uma edição primorosa que entremeava depoimentos e fotografias de prédios do Niemeyer. Depois, dei de frente com uma ficção chamada Rouge Brésil. Segurei meus impulsos consumistas umas 4 vezes... até que não resisti e comprei (preço de batata!) uma edição de bolso. É um romance que se passa em meio à “conquista do Brasil pelos franceses”. Imaginei o que seria do Rio de Janeiro caso Villegagnon não tivesse sido posto pra correr! Imagine só um Rio de Janeiro calvinista ... !!! Antes de qualquer coisa, nada de Cristo Redentor com braços abertos sobre a Guanabara. No máximo, e já como sinal de ousadia, um jato d’água lá pras bandas do Flamengo. E nem quero pensar na praia e no carnaval... Chiquinha Gonzaga e Pixinguinha... o que seria deles?? Se Joãozinho Trinta já tem trabalho com o catolicismo carioca, imagina com discípulos de Calvino? E o Machado de Assis, então... onde acharia máscaras e fendas pra navegar pela racionalização burocrática? Fiquei pensando ainda numa edição da “ética protestante e o espírito do capitalismo” do Weber seguida de um anexo sobre o protestantismo e a colonização dos trópicos!!! Francamente, mudei meu olhar pro Estácio de Sá... Ah... vou até encarar diferente aquela estátua do Anchieta lá em Ubatuba... Afinal, se não fosse pela Paz de Iperoig... Delírios anacrônicos de lado, o fato é que tomei um susto ao ler a quarta capa do Rouge Brésil: “(...) tudo é desmedido nessa aventura. O quadro: a baia selvagem do Rio, ainda entregue ao matagal e aos índios canibais. Os personagens – e antes de tudo o cavaleiro Villegagnon, chefe dessa expedição, nostálgico das cruzadas, pleno de cultura antiga (...)”. Por enquanto meu senso de humor não chega a tanto... Quem sabe eu fico menos implicante e leio este livro que ganhou o prestigiado prêmio Goncourt em 2001 e que vendeu mais de 500 000 exemplares na Europa... (Descobri que existe uma edição brasileira e uma portuguesa. No site da editora brazuca tem uma versão do texto da editora francesa com o desconto das maiores barbaridades etnocêntricas). A professora de francês foi um espetáculo à parte! Foram tantas pérolas que faltaria pescoço pra pendurar os colares que pensei em fazer. Primeiro, ela me perguntou da “nossa” Amazônia, o pulmão do mundo! Tentei falar que não é exatamente pulmão, que a riqueza é outra, mas... não deu. Tentei falar que é difícil controlar porque tem área de fronteira, madeireiras, terras indígenas, economia extrativista, mineração, conflito fundiário, latifúndios antigos... e ela respondeu: uma família é dona? Desisti. Ah... fiz que não ouvi a adjetivação possessiva... Depois, quis saber o que eu faria na Universidade. Após eu contar, falou umas 3 ou 4 vezes: deve ser difícil pra você, né? Pensei que era por conta da língua e falei que o Bronckart entende bem o português e que leio teoria bem em francês. Mas nada, realmente ela estava convencida de que seria muito difícil pra mim. E outra, ainda. Após a minha exposiçãozinha de 10 minutos – superbe, segundo ela – tive que ouvir que o Brasil tem boas universidades porque como nós brasileiros nos sentimos inferiores, a gente estuda pra compensar. Óbvio, ouvi estarrecido e ponto. E nem reagi à minha colega brasileira que cochichou no meu ouvido: isso que ela falou é verdade! No café de confraternização, ela se vira e lasca a queima-roupa: por que vocês não resolvem o problema das favelas, Mauricio? Falei que é preciso desenvolvimento econômico intenso e por muito tempo, pois não é uma questão de vontade pura e simples. Ela se voltou atônita para a brasileira e perguntou: eles não trabalham, não tem empregos? Continuei o bate-papo com o suíço-italiano e com a húngara. Francamente... O professor de Stylistique deu outro espetáculo! Foram shows de pernosticismo ególatra e elitista. Ele é nostálgico de um mundo da inteligência erudita e irreverente que existiu só nos salões das cortes passadas que circulam na sua cabeça. Após ouvir lamúrias e queixumes sobre a burrice do mundo, o analfabetismo dos alunos, a idiotia das massas eu desisti do curso. Faltei numa aula. Depois, pensei: Oh, Mauricio... vai... deixa de ser implicante... vai na última aula! E fui... ... mas... ... ai, ai... devia ter ficado dormindo embaixo de uma árvore no parque... Primeiro, de novo as piadas de praxe contra a França. Depois, um comentário qualquer sobre os “primitivos”! Não era a primeira vez que ele falava orgulhoso de amigos “nada politicamente corretos”. Era esperar o petardo. Não deu outra! Faltavam só 20 minutinhos pra ele encerrar o curso e ir pra casa sem causar maiores sobressaltos. Mas não... ele lascou, todo sorridente, a seguinte piada publicada num jornal anarquista francês: dois amigos se encontram depois de um jogo de futebol entre a seleção francesa e a do Senegal. Um pergunta pro outro: você viu o jogo...? Mal consegui distinguir qual era a seleção francesa! No que o outro responde: a francesa era a que colocava a mão no peito durante o hino! Só ele riu... Meio sem graça, perguntou se éramos politicamente corretos... ou se não tínhamos entendido. Alguns riram... talvez os que não entenderam. Pensei em me levantar e ir embora... mas fiquei. Pelo menos me alegrei ao ver que só uma pequena parte da sala bateu palmas no encerramento. Isso é um pedaço da mó que tritura gente. Na terra estranha, sempre estrangeiro, é preciso lutar pra reintegrar fragmentos culturais diante do olhar e da ação do outro que, virou-mexeu, chegam completamente cheios de rosca e enviesados, pra dizer o mínimo. Eu tenho passado muitíssimo bem por tudo isso. Mas estou acolhido, de passagem e com recursos suficientes pra não ser enterrado por esse olhar discriminador. Mas não é o que acontece com os que estão fragilizados e que não podem fazer frente ao batalhão de besteiras que ouvem. Besteiras ou não, o fato é que essas representações têm efeito prático! Orientam ações e fazem parte de auto-representações.
Escrito por Mauricio às 07h48
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