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Genebra faz bem
Genève le 16 août 2004
Segunda-feira, começo da noite, fim do dia de estudo. O início dos trabalhos com a tese é iminente. Nessa semana, Jean-Paul Bronckart chega de férias e a fase de preparativos estará terminada. Já estou em Genebra há um mês, mas não posso dizer que foram propriamente de férias. Fazer nada, nada, nada... nada mesmo, só em alguns poucos dias. Como já escrevi, um dos meus maiores prazeres tem sido andar pela cidade, sem rumo ou objetivo pré-definidos. Qualquer bate-papo pode ser interessante, em qualquer canto pode surgir algo inédito. Aliás, tudo é novidade, o tempo todo. Talvez a única novidade que vai virar rotina é descobrir uma Genebra que vai se mostrando o exato avesso de quase todas as representações que ouvi sobre ela no Brasil. Em um mês, entendo porque a Rachel e o Jean-Paul falam dessa cidade com tanta paixão. Claro que cada um deles têm uma história aqui, e em suas biografias tão diferentes a cidade surge com faces muito diversas. Mas, em comum, eles são apaixonados pela cidade internacional. Quando se fala em Genebra – cidade internacional, a primeira coisa que vêm à mente são os inúmeros organismos e todas as arbitragens que têm aqui o seu palco. É gozado, pois antes de vir à mente as pessoas, vêm as instituições, os estados, o alto-capital e a alta-burocracia mundial. Pelas ruas, no dia-a-dia, respira-se uma cidade internacional. Mas não se vê marcada o tempo todo a presença da ONU, OIT e similares. Se vêem, antes, pessoas. Se ouvem línguas. A cidade é multicultural e multilingüe. O francês funciona como uma espécie de língua-geral que, ao mesmo tempo, permite que nos comuniquemos e recoloca o poder suíço sobre todos nós. Somos estrangeiros, afinal! Bem recebidos, mas na casa de um outro. Um outro, aliás, que quase não aparece... Tenho visto alguns representantes da espécie no curso de langue e civilisation franco-genevoise, como preferem chamar. Mas não quero falar deles, agora. É fascinante estar numa cidade que reúne tanta gente de tanto lugar diferente. Somos 1/3 da população. E ocupamos as ruas falando todas as línguas, com todos os traços físicos, vestindo todas as roupas e mostrando todas as cores. Um exemplo pequeno: dia desses, na sala de TV, dois amigos conversavam numa mistureba eslava. Um tunisiano e uma inglesa conversavam em inglês. Do meu lado, uma moça escrevia um e-mail em japonês! Largada, a televisão transmitia qualquer coisa em francês. Tudo normal... é assim todos os dias e eu posso enumerar várias cenas como essa. Dá até pra fazer piada com os encontros inesperados... Conheci um argentino de Buenos Aires advogado que é super boa-gente, gentil e camarada. E que tal um americano que escreveu um doutorado que se chama Genealogias da diferença? Quando conto isso em tom de brincadeira, digo que Genebra é o avesso do mundo. Na verdade, a cidade aproxima pessoas e nos permite ir além dos estereótipos. Genebra é encontro puro. A cada instante aparece alguém de algum lugar de onde jamais eu imaginaria conhecer um representante. Até agora, já conversei mais longamente ou só papeei rapidamente, para além da brava gente brasileira, com pessoas desses lugares: Rússia, Polônia, Moldávia, Eslováquia, Suíça alemã, Suíça francófona, Suíça italiana, Japão, Coréia, China, EUA, Inglaterra, Escócia, Países Baixos, Suécia, Alemanha, Hungria, Bulgária, Kosovo, Romênia, Espanha, Portugal, Itália, Bélgica, França, Camarões, Mauritânia, Burkina Faso, Sudão, Tunísia, Irã, México, Venezuela, Colômbia, Bolívia, Argentina... e devo ter esquecido alguns. Apesar de termos biografias, línguas, objetivos, idades, e projetos diferentes, Genebra nos liga. E há a língua-geral para nos entendermos. Para mim, se aproximar aos poucos dessa legião estrangeira tem sido olhar para cada um deles com atenção. O que falam? O que querem? Como reagem? Quais seus desejos, seus projetos? O que valorizam? Do que riem? Fazem piadas quando e do quê? Saem do sério por quê? São frágeis onde? Deficientes em quê? Buscam afinidade com quem? Têm rixas com quem? Quando são simpáticos, quando antipáticos? Tenho a certeza de que não estou conhecendo culturas, mas sim pessoas. É muito diferente e, acima de tudo, mais importante. A condição de nossa sobrevivência, aqui, é dar-se a conhecer e olhar humanamente pros outros. Se não, há opções, como sempre, mas estão ligadas a uma vida segregada. A cidade não é o idílio terrestre da tolerância e da paz entre os povos de todas as nações, e seria ingenuidade achar que seja ou que possa ser. O mais importante é, de novo, que Genebra permite encontros. Mas encontro bom, pra valer, não faz de passagem. De passagem, a gente vê outros representantes da espécie humana e ponto. Ainda que os sinais culturais nos permitam identificar uns e outros como pertencente a esse ou àquele grupo, é difícil, quase impossível, sair da posição taxinômica. Na hipótese mais generosa, de passagem nós conseguimos brincar de colecionar figurinhas... Encontro verdadeiro, só no convívio, só deixando o tempo correr e as relações irem se prometendo, firmando e desfazendo, se anunciando para depois começarem a surgir ou se esvaírem sem chegar a terem sido... Mas com a condição de haver o cimento do convívio. É por isso que desde o exato instante em que me achei no fuso horário, tive pra mim que Genebra não é tão boa pra turismo, mas é ótima pra se viver! Turismo... ah...!!! Paris, Viena, Barcelona, Praga, Roma, Veneza, Florença, Atenas e as cidades do mediterrâneo certamente têm muito mais pra divertir quem está de passagem. E quero conhecer todas elas. Genebra, não. É no ramerrão mesmo que está a sua riqueza, pois é aí que há a possibilidade de nos voltarmos ao outro. Possibilidade com P maiúsculo e não obrigatoriedade, não causa que por si só provoca um efeito inelutável na gente. Como todo mundo possível, é ir em frente e se deixar levar, é só permitir o bate-papo... Nesse mês em que nada mais fiz do que organizar a vida e zerar pendências brasileiras, estou – francamente – maravilhado. Mas não falo isso porque achei algum éden perdido, não. Ao contrário, o encanto não me impede de por vezes sentir vontade de colocar 20 suíços dos beeeemmmm chatos numa sala por um mês e obrigá-los tão somente a se suportarem sem o direito a estrangeiros e tendo de fazer a própria comida e de limpar o próprio espaço – essa última parte é só para permitir a mediação do trabalho com as mãos e não é sem importância. O encantamento não me impede, ainda, de achar uns e outros pentelhos, insuportáveis, antipáticos – ou até mesmo ética e politicamente em um campo oposto. O fascínio está na aproximação humana. Está em me sentir de próximo de gente tão diferente nesses encontros extremamente inusitados. Está em conhecer, em ver como a vida corre e pode correr lá e cá. É como se daqui eu fizesse muitas outras viagens, variadas e inimagináveis na véspera. São viagens reais, mas antes que feitas de deslocamento físico, elas correm pelos mundos e pelas culturas que todos trazem consigo. Por permitir viver em tantos outros mundos, e provar de tantas possibilidades, de tantas formas humanas do bem e do mal, do belo e do feio, Genebra humaniza.
Escrito por Mauricio às 12h28
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Brava gente bailarina
Genève, le 11 août 2004
Um encontro esquisito com o Brasil foi o da semana passada, num parque da cidade. Eu me afastei quatro passos de minha bolsa e de minha máquina fotográfica para comprar uma cerveja pressão – nada mais que o nosso velho e bom chope, embora mais saboroso mas, infelizmente, quente que irrita. Na volta, um casal de amigos me alertou do perigo dum gaiato passar e sair com a féria do dia garantida. Eu estava tão mergulhado em mim mesmo e tão completamente embevecido pela belíssima tarde de domingo no parque que não consegui responder rápido em francês. Talvez eu não conseguisse nem mesmo eu português. Ele perguntou de onde eu era e em seguida me explicou do risco, tudo isso com um enorme esforço pra ir equilibrando sentido na língua portuguesa do Brasil. Não me dei ao trabalho de responder que por momento algum tirei os olhos de minhas coisas, mas deixei o papo seguir. Ele é suíço e fala um francês com um indisfarçável sotaque alemão, que é sua língua materna, ao que parece. Ela, uma sudanesa que trabalha em alguma instituição ligada à ONU. Papeamos um pouco e logo ele telefonou para uma amiga brasileira. Minutos depois, chegou uma carioca de quase 40 anos que trabalhava com transporte escolar. Carregava criançada pra lá e pra cá, mas quando a filha entrou numa faculdade de odontologia cara, a barra pesou! Com uma perua e um lote de crianças eufóricas pra baixo e pra cima, não se come e forma uma dentista ao mesmo tempo. O jeito foi olhar pro além-mar e tentar fazer a Europa. Mulher porreta, ela veio pro que der e vier, menos dar. Ela, pois muitas vêm pra tudo: pro que der, pro que vier e pra dar. Menos de 5 minutos foi o suficiente pra me contar que sempre que conhece alguém diz que veio pra trabalhar e não pra se prostituir. O suíço, inclusive, teria perguntado se estaria disposta a fazer programa. Ele passou algumas férias no Brasil e entende o português muitíssimo bem. Do Brasil, guarda a imagem de um paraíso sexual e adora ficar repetindo nossas imagens estereotipadas. Pelo seu relato, entrou em alguma suruba durante um carnaval qualquer no Rio. Após a carioca revelar a aventura, ele explicou: sou homem! E sorriu com olhos brilhando de orgulho pela façanha e com uma ponta de saudade da putaria. Depois disso, virava e mexia o papo resvalava no Brasil, terra sem pecados. Essa imagem é recorrente. Até hoje uma parte dos gringos se sentem meio como o Pero Vaz de Caminha: cheios de constrangimento tarado ao olhar a vergonha desnuda e pelada das indiazinhas. Uma grande parte, só tarada. Isso era chato, mas o encontro inusitado, interessante. A africana já tinha ido e uma japonesa rica tinha aparecido. Tentei uma piadinha engraçadinha que aprendi com um nissei paulistano, mas não deu certo. O suíço riu, falou Bravo, Maurizstchio!! Rimos todos, eu meio constrangido com a piada despropositada, a japonesa meio sem entender. Pouco depois, entramos todos carro dela e descemos na beira do lago. A festa nacional é, sobretudo, um monte de barracas na beira do lago e vários palcos, quase sempre com música pop pra molecada dançar. Muita gente andando... e formando multidão em Genebra. A programação com filé mignon e biscoito fino não é pra massa. Em lugar algum do mundo, talvez. Mas o meu espetáculo predileto tem sido gente e cidade e não fui a show algum até agora. Nem o circuito de museus eu fiz. Logo nos encontramos com uma amiga deles, equatoriana. Ela não fala nem mesmo a lista de palavras francesas que eu listei no outro texto. E olha que já está aqui há dois anos! Grupo refeito, seguimos em frente, rumo a uma tenda na qual um DJ paranaense tocaria música brasileira. Até agora não sei se devia ter presenciado a cena... Brasileiros dos quatro cantos, todos juntos à beira lago, diante do jato d’água. Na radiola, funk do tigrão e todo o repertório pra se insinuar na boquinha na garrafa. E várias bundas empinadas a chacoalhar desejosas enquanto, ao redor, homens babantes e tarados rondavam a ver se caçavam algo pra madrugada. Algumas meninas sorriam, limpavam a baba e iam embora; outras seguiam com o jogo de sedução. No meio da tenda, a multidão pulava e se empinava. Era música atrás de música, e eu dando voltas pra ver a brava gente brasileira erguer pendões de esperança diante do jato d’água que enfeitava a noite. A carioca, desenvolta, dançou todas com bravura e saudade da terra. Moça séria que é, não tá aqui pra brincadeira e logo se despediu levando junto a equatoriana que não parara de rir desde que a encontramos. Achei até graça ao ver a bailarina do minuto atrás toca cheia de recatos ao me dar a mão toda distante e formal enquanto curvava ligeiramente o tronco feito uma debutante que acaba de encerrar um espetáculo de balé num colégio de freiras. A farra do dia estava no fim. No dia seguinte eu tinha que fazer o teste de nível no curso de francês. Segui pra casa sozinho, triste com a gloriosa pátria mãe gentil. É triste ver que há um casamento da lascívia brasileira com a canalhice européia. Os homens europeus são, por vezes, machistas da pior espécie. Sordidamente saem à caça exultantes com a possibilidade de se livrarem de uma noite de solidão. E se for pra se perder nos prazeres de um corpo educado no calor dos trópicos, é o prêmio máximo. Se regojizam com o fato de serem filhos da riqueza e do prestígio europeus e olham pras meninas com indisfarçável utilitarismo. Passam poderosos mas derretidos e entregues ao verem diante de si uma bunda tropical rebolando freneticamente. É preciso saber como os outros tendem a nos olhar e lidar com isso com cabeça fresca. Não se pode adubar a discriminação, de forma alguma. A delícia é ver os preconceitos se derreterem. Dormi cheio de assunto. No dia seguinte, enquanto preparava o meu jantar, comentei minha impressão com o Max, um argentino pra lá de boa gente. Ele disse que do Brasil, vejo com horizonte estreito. É assim com toda a América Latina. Nos olhamos entristecidos. De fato, a coisa é mais complicada e cabe entendê-la. Um dos complicadores é a moda Brasil que desfila pelas ruas. Andando pela festa, se vê o tempo todo gente vestida com uma camisa amarela de detalhes verdes. Não raro, uma imensa inscrição no peito: BRASIL. E não é gente nacional saudosa e orgulhosa, não! É gente do mundo todo, como um rapaz dos Balcãs amigo do Astrit, meu amigo de Kosovo. Joguei o assunto num bate-papo com Clair, uma inglesa. Ela disse que é verdade, que símbolos de brasilidade estão por toda a Europa e as pessoas os usam porque eles evocam um país alegre, colorido, grande e amigo. E assim compram havaianas a 30 francos. O cabelereiro português, ontem, concordou. Disse que o povo de Genebra ama o Brasil. Sobretudo os homens. As mulheres receiam um pouco, pois se associar com a mulher brasileira é se associar a uma fama “pesada”. No primeiro minuto de conversa, a brasileira do café aqui do lado me contou o seguinte, nestes termos: mulheres brasileiras são vistas como putas; os homens, como vagabundos. E completou: muito correm feito loucos pra se casar e depois caem estupefatos com as conseqüências do tédio com o qual cultivam o casamento. E, olhando com ar conclusivo, arrematou: É aí que entram os brasileiros, entendeu?
Escrito por Mauricio às 12h25
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encontros com a língua
Genève, le 11 août 2004
Tive alguns encontros com a língua portuguesa. Ora com Portugas, ora com Brazucas, ora com estrangeiros lusófonos. Hoje descobri que a Helena, uma colega de curso de francês que vem da Moldávia, fala português com sotaque de Portugal. Eu sorri, pois achei completamente inusitado estar na saída de curso de francês em Genebra e uma mulher da Moldávia vir falar comigo em português com sotaque lusitano... Ela não entendeu porque sorri e acho mesmo que ficou chateada. Vou retomar o assunto amanhã, ela é boa gente e gentil. Ontem, eu estava preocupado. Como iria cortar o cabelo em francês? Como iria explicar que tenho uns dois ou três redemoinhos no cocoruto e ali ao fundo, na parte de trás da cabeça? Se nem em português eu consigo descrever a anatomia da cabeça e as circunvoluções, estufadas e espichadas rebeldes do meu cabelo, como o faria em francês? Falei disso para algumas pessoas no Brasil e aqui. Todos riram, eu inclusive. Respirei fundo, fiquei sério e entrei no salão. Uma mulher linda e elegante me atendeu. Falei em francês que queria cortar o cabelo. Ela chamou o cabelereiro que, após me medir dos cabelos à sandália, disse que em um minuto falaria comigo. 15 segundos depois, fomos no balcão marcar uma hora. Sempre em francês. E eu preocupado em saber se compreendia tudo o que ele dizia... Ele perguntou o meu nome. Como me dá nos nervos essa coisa de todo mundo se chamar pelo sobrenome, respondi: mon prénom: Mauricio - eme a u érre i cê i ô. Ele anotou sem dificuldade alguma, ao contrário do acontece com todos... Ao final, quando eu já saia do salão, perguntou se eu era brasileiro. Eu: sim. Ele: então podemos falar em português. Alívio geral... ri em alto e bom som e lhe contei que era ótimo, pois estava preocupado. Rimos, eu, ele e a moça linda. Horas depois, estávamos na fácil e corriqueira tarefa de cortar o cabelo em português. Ele é um português que sabe falar o português do Brasil e de Portugal. Não é o único que encontrei e que é capaz dessa verdadeira façanha. No meu segundo dia em Genebra, eu ainda estava perdido. Cinco horas de diferença, a orfandade lingüística, o ritual da vida pública cultivado com tanto zelo, o corpo que não sabia a hora de sentir fome e sono, eu que não sabia a hora de buscar comida ou dormir. E uma dor de cabeça infernal. Mas eu estava bem, bem acolhido etc e tal. Era o estranhamento dos primeiros dias. Nesse estado, paguei meus primeiros micos no mercado. Um dles foi comprar mais coisas do que os francos da carteira permitiam. Coisa de quem entra no mercado com cheque e cartão de débito e que tem preguiça de pegar dinheiro no caixa automático. Fiquei puto comigo e disse para caixa: fiz uma besteira! Ela me respondeu em português: vcê num téim um’cartdcrédtu? Após o susto e duas repetições, entendi que ela era portuguesa e que eu podia pagar com cartão de crédito. Alívio... Sempre que volto a passar pelo caixa dela, cumprimos a ritualística da polidez suíça em português. É divertido. Tem uma imensidão de portugueses e brasileiros em Genebra. A língua materna me salvou algumas vezes mais, como no dia em que fui comprar uma carta wireless pra conectar meu notebook na rede sem fio do foyer. Ou no dia em que, antes de descobrir de que não havia a tal da placa wireless dentro do computador, tentei usar a rede sem fio do café ao lado. Nos dois casos, um sorriso seguido de podemos falar em português me devolveu a possibilidade de interagir me sentindo com alguma inteligência. Por essas e outras, é possível a qualquer um sobreviver aqui na cidade de Calvino com um portunhol enriquecido pela série bonjour, bonne journée, bonsoir, bonne soirée, au revoir, à bientôt, merci, c’est gentil, je m’appelle X, je viens du/de la Y. E mais nada em francês. Não precisa. Um Je suis Z já é sofisticação e pretensões de erudição. Impressiona, mas pra sobreviver pegando no pesado basta só o que enumerei ou até menos. Quando a coisa apertar, é só apelar pra mímica. Ou fazer cara de que entendeu e seguir adiante. Claro, sempre ajuda lembrar de nossas brasileiríssimas palavras francesas, como toalete, abajur e sutiã, que eu escrevo agora sem que o corretor automático do Word esboce qualquer queixa.
Escrito por Mauricio às 12h25
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Genebra, quem diria...
Genève le 31 juillet 2004
Já faz tempo que não escrevo em meu diário digital. Mas não é por falta do que fazer. Escrevi e muito por esses dias. Um artigo para o Cenpec, as orelhas da coleção Terra Paulista, um começo de artigo para uma revista acadêmica e e-mails, vários e-mails. Gosto do correio eletrônico. A facilidade do acesso banaliza muito a corespondência, mandamos muitos “bilhetes” e “malas-diretas”. Mas em meio à avalanche, tem as cartas mais cuidadas e as boas conversas.
Ontem passeei por Genebra numa legião estrangeira: eu, um italiano, um iraniano e um rapaz de Kosovo. Todos muito novos, o mais velho deles com 25 anos. Foi divertido, engraçado. O rapazola de Kosovo deu o tom, numa espécie de regressão no parque de diversões à beira do lago. Eu fiz várias fotos, empolgado com os fogos de artifício. Será que ficaram bonitas? Só vendo! Enquanto os fogos explodiam em cores e cascatas no céu, uma voz narrava o nascimento do universo. Não consigo deixar de sorrir quando presencio essas apoteoses estranhas. Era a abertura da Festa Nacional. Do Big Bang a Genebra? Era essa a saga que contavam em luzes coloridas explodindo no céu? Eu estava mais preocupado com o obturador e o tripé.
Fiquei com a impressão, ontem, de que há uma massa de imigrantes não se vê como cidadã em Genebra. Estamos no mesmo espaço, mas há uma Genebra que fica lá, sempre um tiquinho mais além. Muitos estão num aqui meio estranho, um aqui que é e não é Genebra. É o sem-lugar dos estudantes, dos clandestinos, dos sub-empregados, dos trabalhadores pobres, dos jovens pobres, dos que não dominam os códigos nem têm os meios de vida. Enfim, é o deslocamento daqueles que estão mal acomodados na Genebra rica e de excelente qualidade de vida. Na Genebra fascinante e encantadora, diga-se!
Senti isso ao andar com eles e ao ver a massa de jovens pelas ruas. Antes, sozinho, eu via apenas sinais externos de que a Genebra cortesã, polida, elegante, cosmopolita e rica estava gerando uma ferida em suas canelas. Ontem à noite pude me aproximar um pouco mais dessa canela ensangüentada.
Nesses 15 dias, vi a Polícia em ação duas vezes, apenas. Nas duas, reprimindo um jovem africano. Uma, na biblioteca da Fapse; outra, na rua. Comentei com a Janette, que me disse da freqüência do uso intenso de drogas entre jovens africanos pobres. Há um clima de insegurança na universidade, pois em todo lado se vê cartazes alertando os usuários incautos a tomarem conta de seus pertences, sobretudo os valiosos, para que se evitem os furtos. São notebooks roubados, armários devassados...
Eles parecem meio atônitos com o curso lento e firme da quebra sutil do laço de segurança e paz que parece ter havido. E tudo indica que os jovens africanos pobres foram eleitos como suspeitos.
Num jornal local, havia uma matéria sobre violência urbana. Numa briga de rua, um jovem espancou o outro e, não se sabe se pelos golpes ou se pela queda no chão, o que apanhou teve traumatismo craniano. O agressor foi preso! Mas o engraçado é o tom da matéria... é a maneira assustada com a qual se relata a cena da prisão! Na alta madrugada genevoise – eram 4 da manhã, se me lembro bem – a polícia foi chamada para dar conta de um roubo. Havia um homem ensangüentado que teve o seu Rolex levado. Foi no retorno dessa ocorrência que os policiais notaram a movimentação por conta da briga dos jovens. Ufa!!! Dois casos numa mesma noite e ao mesmo tempo! É demais pra um Plainpalais só!!! Ao que parece, não havia jovens africanos implicados.
Ainda no capítulo violência urbana, a vitrine de uma joalheria na rua do Carouge merece destaque. Ela sofreu um ataque! Quebraram o vidro para enfiarem as mãos e trazer jóias lindas a caras. A loja não se fez de rogada! Limpou meticulosamente o vidro estourado deixando tão somente o buraco e as rachaduras em teia de aranha como sinal da agressão. Por cima, havia um novo vidro. Ficou bonito, até. Sobretudo, a imagem é forte e o recado incisivo. Uma senhora e um senhor pararam pra ver e trocaram comentários meio indignados, meio espantados. Ensaiei algumas palavras. Era meu terceiro dia na cidade e só consegui um gesto e uma expressão enfática, de surpresa. Depois, segui em frente. Eu tinha muito o que fazer.
Os Punks são um caso à parte! Há vários deles – uns 50, talvez! – pelas ruas da cidade. Ontem à noite, na festa da cidade, havia vários inteiramente bêbados jogados na rua. No meio do bando, sujeira e vômito! Não é exagero! Eu e os rapazes tivemos de pular a cabeça de um punk com sua obra escatológica para darmos o fora. Rimos... discutimos como se diz vômito e vomitar em francês, português e italiano! O iraniano é brincalhão e irônico. Falei que é assim que eles expressam a revolta. Dormir sobre o próprio vômito é o início da transformação radical do mundo. Continuamos a rir e seguimos em frente.
Chegando no alojamento, um rapaz franco-sueco nos esperava. Foi sorridente e receptivo. Falou comigo em espanhol, com olhos vivos. Achei que ele era hispano-falante, mas não. Era simpatia e tentava falar a minha língua. Os rapazes disseram que não falo espanhol, mas português. Conversamos um pouco em francês. Ele estuda ciência política. Do Brasil, ele tem uma imagem recorrente: grandiosidade, cidades imensas e violência urbana. Eles têm medo das cidades brasileiras e sentem-se fragilizados na condição de estrangeiro. Como sempre, o medo cria uma imagem difusa e generalizada, que não ajuda em nada a compreender e a lidar com a violência. Mas é uma imagem que interfere na ação das pessoas. Nesse caso, serve de anti-propaganda para o turismo.
Na manhã seguinte – hoje – li notícias e artigos sobre a economia e a política brazuca. Marolas de costume... polêmicas de praxe ... e boas notícias. Mas fiquei com uma dúvida: será possível ampliar o investimento na economia e promover um real crescimento econômico? Como vários economistas já alertavam no ano passado, crescer dentro da capacidade instalada não é difícil. O negócio é expandi-la significativamente. O segundo semestre será decisivo, talvez a redução do endividamento das empresas e da classe média, a recuperação da renda e a proximidade do natal sirvam de estímulo. Se é que esse estímulo pelo lado da oferta não vai servir é pra aumento de preços... Precisa-se de aumento de produção – e emprego. Mas isso é lento. E as proporções do Brasil são gigantescas. A PEA da grande SP é de cerca de 10 000 000 de pessoas! No mês passado, aumentaram em 50 000 os postos de trabalhos na região, segundo os dados do SEADE. E pensar que Genebra tem pouco menos de 180 000 habitantes...
Estou a cada dia mais impressionado com a diferença de escala entre a vida paulistana e a daqui. Contamos por milhares e milhões. Eles, por unidades e centenas. Milhões, só os de dólares. Petrodólares. Só nessa semana descobri qual é o jornal decente de Genebra e poderei saber mais sobre a vida local. Mas creio que para os bancos locais não é a lavagem de dinheiro dos Malufs de todo o mundo o que interessa. É o gerenciamento das altas fortunas! É mais seguro, mais limpo e agrega mais poder.
Mas já entro em outro capítulo. Nele, há hotéis caríssimos, cassinos e bancos. O que poderei ver disso? Vou aproveitar o sábado e andar mais um pouco.
Escrito por Mauricio às 11h02
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